segunda-feira, 23 de maio de 2011

Apontamentos do meu País - Maria I


O dia amanheceu quente, com aquele aspecto típico de que vai ser bem soalheiro. O feno estava cortado de véspera, era pois necessário apanhá-lo e levá-lo para um coberto, porque estes dias que amanhecem muito solarengos em pleno Maio, por vezes trazem consigo, tardes de trovoadas e chuvas. Não se podia correr o risco, de estragar todo o trabalho de longos meses.
Maria conduziu o seu tractor à leira. No atrelado, ia a sua filha de dois anos, afinal não tinha mais ninguém a quem a deixar, teria mesmo de ir consigo para o campo. Chegada à leira, estendeu uma manta num canto e sentou a pequena, colocou-lhe o chapéu cor-de-rosa na cabeça e uns brinquedos à sua volta. Depois pegou na forquilha e começou a acumular o feno e a carregar o tractor, antes que ficasse demasiado calor, que o suor já lhe escorria pelo rosto às dez horas da manhã.
Amiudamente olhava a sua menina que sentada na manta, se entretinha calmamente com os seus brinquedinhos e pensava que consigo própria, que teria de voltar amanhã, pois o carrego já era grande e havia mais feno, por apanhar. Ainda tinha de fazer o almoço que teria de ser servido pontualmente ao meio-dia e meia ao marido que tinha ido sulfatar a vinha...

(História verídica, passada nos arredores de Esposende em Maio de 2011...)

24 comentários:

Pratos da Bela disse...

Também levo o meu, desde pequenino, para o campo e lembro-me de o colocar também numa manta, enquanto tirava as ervas daninhas no meio dos legumes, com isso, o meu Luquinas ganhou amor à terra e sempre que digo "vamos para o campo", ele só pede as galochas, para poder ajudar o tio na rega, e olha que ainda fazemos à moda antiga com a enxada e bidões. Mas o meu irmão coloca-lhe agua no regador dele e lá vai o Luquinhas regar os morangueiros e outros...
Enfim, vida de pobre, mas feliz.
Também é um consolo, carregar, saladas, batatas, favas, ervilhas, pencas, repolhos, morangos, laranjas, nesperas, ameixas, cebolo, bem fresquinho do campo para casa...
Jinhos fofos e obrigada por esta recordação.

Julie D´aiglemont disse...

É uma realidade que me é muito familiar, porque vivo na aldeia. Beijinhos.

São disse...

Aqui deixo os meus respeitos a quem ainda hoje tem uma vida dura desse jeito.

Grata por fazer saber das dificuldades das pessoas que , anonimamente, levam este país para a frente.

Um abraço grande, minha linda

Nina disse...

Sempre que me dizem que sou uma mulher de coragem, relembro história assim.:)
bji, querida.

Catarina disse...

Tarefas campesinas, fisicamente mais difíceis mas talvez mais saudáveis...

Autora de Sonhos disse...

Adoro essas histórias!

Sam. disse...

Mulher é mesmo um ser incrível! desdobrável!

Um beijo, Manu!

Boa semana!

Joana disse...

Não me importava de viver no campo uns dias e fazer todas as coisas que se faz lá. :)

Rosa dos Ventos disse...

Verídica, bonita, bucólica!

Abraço

maria teresa disse...

Uma realidade que não me é familiar mas que sei que existe, muito bem descrita.
Abracinho meu!

anf disse...

Coneço bem essa realidade, pois vivo numa aldeia que vive da agricultura,
é dura a vida,
às vezes nem sei do que nos queixamos,
conta mais histórias assim,
beijo apertado

Nita disse...

Linda a história, revi nela a vida que a minha avó levava, ela chegou a levar os 4 filhos para o campo, obrigada por partilhar.
Beijos Manuela

mfc disse...

Cá virei amanhã ler a continuação!

flor de jasmim disse...

Manuela Querida
Adorei!!! E como eu revivo certos episódios, nasci numa aldeia,tinha 8 aninhos quando andava nas terras na monda do arroz com água pelo pescoço, vinha da escola ia para as terras com o meu pai, depois casei com um filho de negociânte de gado e lavrador, minha filhota mais velha, andava pelas terras com a minha sogra, outras vezes ia comigo para a fábrica. Talvez por isso eu ainda hoje adoro andar nas terras e no pinhal, galinha de campo não quer capoeira.
Beijinho

Andreia disse...

Olá minha querida! Passei para te deixar um grande beijinho e desejar-te uma boa semana.
Beijinhos

KINHA disse...

Olá Manuela

Adorei a sua visita, obrigada.
Eu amo o seu país.

Bjoooooooooooo...............

http://amigadamoda.blogspot.com

carol disse...

Há vidas extremamente difíceis. O bucolismo só está em quem lê e está por fora...

AVOGI disse...

e MANELA O meu neto de um ano e meio já me pede para levá-lo a ver as alfaces que plantámos e ajuda-me a tirar a servas
kis .=)

Lacorrilha disse...

:) Aguardo pela continuação.

Manuela disse...

Minhas amigas e meus amigos, agradeço a todos os vossos comentários e os testemunhos na primeira pessoa, da Bela, da anf, da flor de jasmim, da Nita, da AVOGI.
Estas são situações que vivo de perto e são verídicas, como indico no final do texto, apesar de ter alterado o nome da personagem.
Não pretendia dar continuação ao texto, mas como me incentivaram, segue a segunda parte!

Beijinhos e obrigada pelas vossas palavras, minhas queridas e meus queridos.

estrela disse...

bom aconteceu-me ler 1º a segunda parte e agora esta....mas agora já percebi....

Manuela disse...

estrela, não tem problema, encadeia-se a leitura ;)

Beijinhos, minha querida.

Green disse...

Por cá já não é bem assim, mas quando eu era pequena calhava-me também ir para a terra, de manhã à noite, e ali ficava a brincar numa qualquer sombra enquanto os meus avós amanhavam as terras.

Manuela disse...

Green, obrigada pelo teu testemunho na primeira pessoa :)

Beijinhos, minha querida.